1. Ó ,minha alma! Serás algum dia boa, singela, única, pura, mais potente que o corpo que te circunda? Provarás algum dia a disposição que te incitas a amar e a querer? Serás algum dia completa, sem necessidades, sem desejar nada de menos, sem ambicionar nada demais - nem animado nem inanimado - para desfrute de teus prazeres, sem desejar sequer um prolongamento do tempo no transcurso que perdure tua diversão, nem tampouco um lugar, uma região, um ar mais aprazível, nenhuma boa harmonia entre os homens? Estarás conformada com tua presente disposição? Estarás satisfeita com todas tuas circunstâncias presente? Convencerás a ti mesma que tudo vai bem, já que tudo te é enviado pelos deuses, e é sempre um bem o que aos deuses convém promover para a conservação do ser perfeito, bom, belo e justo que gera todas as coisas e a todas contém e recebe ao se dissolverem para se transformarem em outras semelhantes? Será algum dia tal, que possa conviver em harmonia com os deuses e com os homens, até o extremo de não lhes fazer nenhuma censura nem ser condenado por eles?
  2. Observa atentamente o que exige tua natureza, na convicção de que só ela te governa; continuando, ponha em prática e aceita isso que te exige desde que não sofra a tua índole de ser vivo. Seguidamente, deves observar o que pede a tua natureza de ser vivo, dessa forma, deves aceitar o que exige, a não ser que corrompa a tua natureza de ser racional, que é também um ser sociável. Sirva-te pois dessas regras e com nada mais te preocupe ou deseje.
  3. Tudo o que te acontece poderá ser suportável ou não pela tua natureza. Se, pois, acontece-te algo que por natureza pode suportar, não te incomodes; ao contrário, já que tem dotes naturais, suporta-o. Mas se te acontece algo que não pode por natureza suportar, tampouco te incomodes, pois antes te consumirá. Entretanto, tenha consciência de que possuis dotes naturais para suportar tudo aquilo que tua opinião entender como suportável, convencendo-te de que nisso reside o teu interesse e o teu dever.
  4. Se alguém comete um deslize, instrua-o benevolamente e lhe indique sua negligência. Mas se for incapaz, recrimina a ti mesmo - ou nem a ti mesmo.
  5. Algo que te aconteça, desde a eternidade, já estava preestabelecida para ti. E tudo que te aconteça provém do encadeamento de causas.
  6. Existam átomos ou natureza, admita-se de entrada que sou parte do conjunto universal que governa a natureza; logo, sou parente das outras partes que a mim se assemelham. Porque, tendo isto presente, em tanto que sou parte, não me contrariarei com nada do que me é atribuído pelo conjunto universal. Porque este nada tem que não convenha a si mesmo, dado que todas as naturezas têm isto em comum e, entretanto, a natureza do mundo se adotou o privilégio de não ser obrigada por nenhuma causa externa a gerar nada que a si mesmo prejudique. Precisamente, tendo isto presente, ou seja, que sou parte de um conjunto universal de tais características, acolherei com prazer todo sucesso. E na medida em que tenho certo parentesco com as partes de minha mesma condição, nada contrário ao conjunto executarei, mas sim ao bem meu objetivo tenderá para meus semelhantes. E para o que é proveitoso ao todo, encaminharei todos meus esforços, abstendo- me do contrário. E se assim se cumprem estas premissas, forçosamente, minha vida terá um curso feliz, do mesmo modo que também conceberias próspera a vida de um cidadão que transcorresse entre atividades úteis aos cidadãos e que aceitasse gostosamente o encargo que a cidade lhe atribuísse.
  7. É necessário que se destruam as partes do conjunto universal, que, pela natureza, foram colocadas no mundo. Quero dizer com isso que serão alteradas. E se por natureza for um mal esta alteração para aquelas partes, não discorreria bem o conjunto universal, dado que suas partes tenderiam a alterar-se e estariam dispostas de diversas maneiras a serem destruídas. Acaso a natureza, por si mesma, tratou de machucar as suas próprias partes, deixando-as expostas a cair no mal e inclinadas necessariamente a fazer o mal, ou lhe surgiram assim sem dar-se conta? Nenhuma nem outra coisa merece crédito. Se alguém explicasse estas coisas a tenor de sua constituição natural, seria ridículo que manifestasse que as partes do conjunto universal nasceram de uma vez para transformar-se e, ao mesmo tempo, o que fique surpreso com o que acontecesse, ou se irritasse disso, sobre tudo, quando a dissolução se produz com vistas à libertação dos elementos constitutivos de cada ser. Pois ou se trata de uma dispersão de elementos, a partir dos quais foi composto, ou é uma volta do que é sólido em terra, pelo que é rarefeito em ar, de modo que estes elementos possam ser reassumidos na razão do conjunto universal, para que os consuma o fogo, caso o universo seja sujeito a incinerações periódicas, ou os aproveite a renovação, caso ele seja contínuo e eterno. E não imagines que os elementos físicos e o teu sopro vital foram provenientes de tua mãe; ambos provem dos alimentos que absorvessem ou do ar que respiraste. O que se transforma é o que da natureza provém, e não do que tua mãe gerou. Mesmo supondo que tua personalidade fique presa ao que veio de tua mãe, o teu ser não se enfraquece.
  8. Depois de merecer tais epítetos: bom, reservado, veraz, prudente, resignado, magnânimo, procura não trocar nunca de nome, e, se perderes ditos nomes, empreende um resgate a toda pressa. E tenha presente que o termo “prudente” significa em ti a atenção para captar cabalmente cada coisa e a ausência de negligência; o termo “resignado”, a voluntária aceitação do que atribui a natureza comum; “magnânimo”, a supremacia do espírito sobre as convulsões suaves ou violentas da carne, sobre a vangloria, a morte e todas as coisas desta índole. Portanto, se aposse destes nomes, sem desejar ser chamado assim por outros, serás diferente e entrarás em uma vida nova. Porque, continuar sendo o que foste até agora, e em uma vida como esta, ser desgarrado e impuro é muito próprio de um ser insensato, apegado à vida e semelhante aos gladiadores devoradores que, coberto de feridas e de sangue misturado com pó, apesar disso, suplicam que os deixem viver para o dia seguinte, a fim de serem jogados no mesmo estado às mesmas garras e mordidas das feras. Busca, pois, a obtenção destes poucos nomes. E se consegues permanecer neles, fica onde estás , como transportado a umas ilhas dos bem-aventurados. Mas se fracassas e percebes que não os possuis, busca impetuosamente algum retiro onde possa reconquistar De outra feita, sai de vez da vida, não enfurecido, mas simples, livre e modestamente, tendo feito ao menos uma boa coisa na tua existência: essa partida. Para jamais esqueceres essas virtudes, será muito útil a lembrança dos deuses, que não gostam que os bajulem, mas sim, que os imitem os seres racionais. Assim, que a figueira se conduza como figueira, o cão como cão, o homem como homem.
  9. A farsa, a guerra, o temor, a estupidez, a escravidão irão apagando, dia a dia, aqueles princípios sagrados que tu, homem estudioso da natureza, imaginas e acatas. É preciso que olhes o todo e faça de tal modo, que simultaneamente cumpra o que é dificultoso e de uma vez ponha em prática o teórico; e conservando em ti, íntima porém visível, a satisfação que vem do conhecimento de cada coisa. Porque, quando gozarás da simplicidade? Quando da gravidade? Quando do conhecimento de cada coisa? E quando poderás discernir o que é em essência cada coisa que compõe o mundo e quanto tempo está disposto pela natureza e que elementos a compõem? A quem pode pertencer? Quem pode outorgá-la e tirá-la?
  10. Uma pequena aranha se orgulha de ter caçado uma mosca; outro, uma lebre; outro, uma sardinha na rede; outro, leitões; outro, ursos; e o outro, Sármatas. Não são todos eles uns bandidos, se examinar atentamente seus princípios?
  11. Adquire um método para contemplar como todas as coisas se transformam umas nas outras; e sem cessar , aplica e exercita a filosofia, já que nenhuma outra eleva a alma. Quem se dedica como quem se despiu de seu corpo, considerando que dentre e breve deverá abandonar todas estas coisas e afastar-se dos homens, entrega-se inteiramente à justiça nas atividades que dependem dele, e à natureza do conjunto universal. O que se dirá dele, ou o que se imaginará, ou o que se fará contra ele, não o preocupa, pois só estas duas coisas busca: fazer com retidão o que atualmente lhe compete e amar a parte que agora lhe atribuída, renunciando a toda atividade e afã. E não quer outra coisa que não seja cumprir com retidão segundo a lei e seguir a Deus que se movimenta pelo reto caminho.
  12. Que necessidade de receios, quando te é possível examinar o que deves fazer? Caso veja em o rumo, caminha por este caminho tranquilamente e sem desvios ou receios. Mas, caso contrário, detenha e recorre aos mais sábios; e acaso outras diversas travas criem obstáculos à missão a que te conduz, segue adiante segundo os recursos ao teu alcance, tendo presente em teus cálculos o que te parece justo. Porque o melhor é alcançar este objetivo, e o contrário é causa de todos os males. Tranquilo e entretanto resoluto, alegre e entretanto sério é aquele que segue sempre a razão.
  13. Assim que acordares, pergunta-te: “Importa-te que outro te reprove ações justas e boas?”. Não te importará. Tem esquecido como esses que alardeiam com louvores e censuras a outros se comportam na cama e na mesa, que coisas fazem, o que evitam, o que perseguem, o que roubam, o que arrebatam
  • não com suas mãos e pés a não ser com a parte mais valiosa de seu ser, da que nascem confiança, pudor, verdade, lei e uma boa consciência?
  1. À natureza que tudo dá e tudo toma, diz o homem educado e respeitoso: “dê-me o que queira, recupera o que queira”. E não o diz com orgulho, senão com submissão e benevolência.
  2. Pouco tempo te resta. Vive como numa montanha, pois nada importa o ali ou aqui, ou em qualquer parte mundo, como numa cidade. Que os homens observe e estudem um homem que vive de verdade em consonância com a natureza. Se não lhe suportarem, que lhe matem. Porque melhor morre do que viver uma vida igual a sua.
  3. Não siga discutindo a respeito de que tipo de qualidades deve possuir um homem de bem, mas trata de sê-lo.
  4. Imagina sem cessar a eternidade em seu conjunto e a substância, e que todas as coisas em particular são, em relação à substância, como um grão infinitesimal; e a respeito do tempo, como um giro de uma broca.
  5. Detenha em cada uma das coisas que existem, e concebe-a já em estado de dissolução e transformação, e como evolui à putrefação ou à dispersão. Considera que cada coisa nasceu para morrer.
  6. Como são os homens quando comem, dormem, quando dormem com uma mulher, e quando se entregam às necessidades animais! Logo, como são quando se mostram altivos e orgulhosos, ou quando se zangam e, apoiando-se em sua superioridade, humilham a outros. Há pouco tempo eram escravos de quantos senhores e por que motivos. E dentro de pouco se encontrarão em circunstâncias parecidas.
  7. Convém a cada um o que lhe contribui a natureza do conjunto universal, e convém precisamente no momento em que aquela o contribui.
  8. A terra deseja a chuva; deseja- a também o venerável ar. Também o mundo deseja fazer o que deve acontecer. Digo, pois, ao mundo: Meus desejos são os teus. Não o diz aquela frase proverbial: “isso deseja chegar a ser”?
  9. Ou vive aqui, por já está acostumado; ou te afasta, que é o que querias; ou morre, se cumpriste tua missão. Fora disso, nada mais existe. Por conseguinte, tenha bom ânimo.
  10. Que fique claro para ti que a vida não seria melhor nos campos, ou nas campinas; e como tudo o daqui é igual ao que está no campo ou no monte ou na costa ou onde queira. Acabarás concordando coma as palavras de Platão: “…num palácio como numa cabana na montanha, tirando leite das ovelhas…”.
  11. O que significa para mim meu guia interior? E o que faço dele agora, e para que o utilizo atualmente? Por ventura está vazio de inteligência, desvinculado, e separado da sociedade, fundido e misturado com a carne, até o ponto de poder modificar-se com esta?
  12. Quem foge do seu senhor é um desertor. A lei é nosso senhor, e quem a transgride é um desertor. E de uma vez, também quem se aflige, irrita ou teme, e não aceita o que tenha lhe acontecido pela lei, também é um desertor.
  13. O pai depositou o sêmen no útero e se retirou; a partir deste momento outra causa interveio elaborando e aperfeiçoando o feto. Que causa, de que origem?Depois a criança deglute o alimento: outra causa intervém e produz a sensação, o instinto e, em uma palavra, a vida. Contempla tais maravilhas, que se processam ocultamente, reconhece o poder que as opera, como reconhecemos o que faz cair ou erguer os corpos, embora seja evidente que com os olhos nada disso vemos.
  14. Reflete que tudo que agora está feito, antes também se fez e sempre se fará. Ponha diante dos olhos os dramas e cenas semelhantes que conheceste por própria experiência ou por narrações históricas mais antigas, como, por exemplo, toda a corte de Adriano, toda a corte de Antonino, toda a corte de Filipe, de Alexandre, de Crésus. Todos aqueles espetáculos tinham as mesmas características, só que com outros atores.
  15. Todo homem que se aflige ou se revolta parece-te como um leitão que se debate e grunhe ao ser imolado. Pois se iguala aquele que, sozinho, em seu leito, em voz baixa se lamenta dos laços que o prendem. Pensa que só ao ente racional foi dado obedecer voluntariamente, conquanto seja imperativo obedecer simplesmente.
  16. Detenha particularmente em cada uma das ações que praticas e te pergunte se a morte for terrível porque te priva disso.
  17. Sempre que uma falta de alguém te escandalizar, pensa que falta semelhante cometeste; por exemplo, ao considerar que o dinheiro é um bem, ou o prazer, ou a fama, ou outras coisas deste estilo. Porque se assim agires, rapidamente esquecerás a irritação, e então dareis conta de que ele foi forçado a fazer isso. E o que pode fazer? Se puderes fazer algo, livra-o do que o obriga.
  18. Ao ver Sátiro, Eutiquio ou Himenio, evoca um socrático; e ao ver Eufrates, imagina Eutiquio ou Silvano; ao ver o Aleifrônio, imagina Tropeóforo; e ao ver Xenofonte, imagina Critão ou Severo; volta também os olhos sobre ti mesmo e imagina a um dos Césares; e sobre cada um deles imagina no se assemelhas. Continuando, sobrevenha a seu pensamento a seguinte consideração: Onde estão estes homens? Em nenhuma parte ou em qualquer lugar. Pois desta maneira concluirás constantemente que as coisas humanas são fumaça e nada mais. Mesmo assim recorda-te de que quem uma vez se transformou jamais, em todo o tempo infinito, voltará ao que era. Então, por que te atormentas? Não te é suficiente atravessar dignamente o curto espaço que te foi concedido? Quantas vezes deixaste de agir e refletir! Porque, o que é tudo a não ser exercícios da razão que viu ,exatamente, segundo a ciência da natureza, as vicissitudes da vida? Persiste, pois, até que te tenha familiarizado também com estas considerações, como o estômago forte assimila todos os mantimentos e como o fogo brilhante reduz a chama e resplendor algo que lhe jogue.
  19. Que ninguém possa dizer-te, verdadeiramente, que não és um homem singelo e bom. Pelo contrário, quem blasfemar contra ti, que seja tido com um mentiroso. Tudo isto só depende de ti. Pois quem te impede de ser singelo e bom? Se, todavia, não o puderes ser, não queira mais viver, já que nem a razão na vida te reterá.
  20. Em minhas atuais circunstâncias, que de melhor se pode dizer ou fazer? Porque, seja o que for, é possível fazê-lo ou dizê-lo, e não alegues obstáculos, nunca. Não cessarás de gemer até que tenhas consciência de que igual à brandura corresponde aos que se entregam aos prazeres. Incumbe-te de fazer o que é próprio da condição humana. Porque é preciso considerar como desfrute tudo o que te é possível executar de acordo com a tua particular natureza; e em todas partes te é possível. Em efeito, não se permite ao cilindro desenvolver sempre seu movimento particular, tampouco lhe permite à água, nem ao fogo, nem a outros objetos que são regidos por uma natureza ou alma irracional. Porque são muitas as travas que os retêm e contêm. Entretanto, a inteligência e a razão podem transpassar todo obstáculo de conformidade com seus dotes naturais e seus desejos. Ponha diante dos olhos esta facilidade, segundo a qual a razão cruzará todos os obstáculos em qualquer direção, seja igual ao fogo que sobe, a pedra que cai, ao cilindro que se desliza por um eixo, e nada a impede de seguir. Porque os obstáculos pertencem somente ao corpo, esse cadáver, que se não fosse a opinião ou a razão que o sustentasse, o que seria? Se não fosse assim, seriam corrompidos aqueles que fossem vitimados, como acontece com todas as outras produções da natureza ou da arte, que os acidentes deterioram. Ao contrário, o homem fica mais digno quando faz uso dos obstáculos com os quais se deparam, sejam eles quais forem. Em suma, lembra-te que nada é nocivo ao cidadão que não seja nocivo à cidade, e que nada é nocivo à cidade que não seja também nocivo à lei, e que a adversidade em nada ofende à lei. Não a ofendendo, não ofende a cidade e tampouco ao cidadão.
  21. Aquele que foi tocado pelos verdadeiros princípios, basta uma simples palavra e a mais coloquial para lhe dissipar a tristeza e o temor. Por exemplo: “Derruba pelo chão o vento as folhas, assim também a geração dos homens”. Também são folhas caídas teus filhos; folhas caídas deste mudo são também estes pequenos seres que te clamam sinceramente e te exaltam ou ,pelo contrário, te amaldiçoam, ou em segredo te censuram e te burlam; e também são folhas caídas os que celebrarão a fama póstuma. Porque tudo isto “ressurge na estação primaveril”. Logo, o vento as derruba; continuando, outras folhas brotam em substituição daquelas. Comum a todas as coisas é a fugacidade. São efêmeras todas as coisas, mas tu, entretanto, as evitas ou as buscas como se fossem eternas. Um pouco mais e ficarás cego. E ao que te prantear, logo outro pranteará.
  22. É preciso que o olho são veja todo o visível e não diga: “quero que isso seja verde”. Porque isto é próprio de um homem doente da visão. E o ouvido e o olfato sãs devem estar dispostos a perceber todo som e todo aroma. E o estômago são deve digerir todos os alimentos, da mesma maneira como um moinho que tritura os grão que lhe foi concedido a moer. Por conseguinte, também a inteligência sã deve estar disposta a confrontar tudo o que lhe sobrevenha. E quem diz: “Que se salvem os meus filhos” e “Que todos elogiem o que faço” é como um olho que busca o verde, ou um dente que reclama mastigar.
  23. Ninguém é tão afortunado que, no momento da morte, ninguém se regozije desse momento. Era diligente e sábio. Em último término haverá algum que diga para si: “Enfim, iremos respirar livres deste mestre”. “Certamente, com nenhum de nós era severo, mas no seu íntimo censurava-nos”. Isso nota-se a um homem diligente. Quanto a nós, quantos motivos não há para que mais de um queira se ver livre de nós! Esta reflexão farás perto da morte, e te despedirás deste mundo com ânimo bastante mais plácido se te fizer essas considerações: “Deixo uma vida na qual até meus concidadãos, por quem tanto trabalhei, tantos votos fiz, tantos cuidados passei, chegam a desejar a minha ausência, esperando que dela lhes venha algum proveito”. Então, qual motivo me faz demorar mais aqui? Mas não por isso deves ser menos benevolente com eles; antes bem, conserva teu próprio caráter: amistoso, benévolo, favorável, e não, ao contrário, como se fosse arrancado daqui, mas sim, do mesmo modo que em uma boa morte a alma se desprende facilmente do corpo, assim também deves preparar-te tua viagem daqui. Porque foi com eles que a natureza te uniu. “Mas agora te separa deles”. Separo-me de meus íntimos sem oferecer resistência, sem violência. Porque também isto é um dos fatos conforme à natureza.
  24. Em toda ação feita por qualquer um, acostume- te, na medida de tuas possibilidades, a perguntar- te: “Com que finalidade realiza essa ação?”. Mas começa primeiro contigo mesmo. Examina primeiro as tuas ações.
  25. Tenha presente que o que te move como uma boneco é certa força oculta em seu interior; esta força é a eloqüência, é a vida, é, se terá que dizê-lo, o homem. Nunca imagina confundida com o recipiente que a contém nem com os membros modelados em torno dele. Porque são semelhantes aos pequenos arranjos, e unicamente diferentes, em tanto que são inatos. Porque nenhuma utilidade se deriva destas partes sem a causa que os move e dá vigor superior, assim como a lançadeira sem a tecelã, o lápis sem o escritor e o chicote sem o cocheiro.