1. Quando está de acordo com a natureza, o nosso “dono interior” adota, em relação aos acontecimentos, uma atitude tal que sempre, e com facilidade, pode adaptar-se às possibilidades que lhe são dadas. Não tem predileção por nada predeterminado, mas se lança instintivamente frente o que lhe é apresentado, com prevenção, e converte em seu favor inclusive o que lhe era obstáculo. Como o fogo, quando se apropria dos objetos que caem sobre ele, sob os quais uma pequena chama haveria sido apagada. Mas um fogo resplandecente com grande rapidez se familiariza com o que se encontra sobre ele e o consome totalmente levantando-se a maior altura com esses novos escombros.
  2. Nenhuma ação deve empreender-se sem motivo nem de modo divergente à norma consagrada pela arte.
  3. As pessoas buscam retiros no campo, na costa e no monte. Tu também tens o costume de desejar tais retiros. Mas tudo isso é do mais vulgar, porque podes, no momento em que queiras, retirar-te em ti mesmo. Em nenhuma parte o homem se retira com maior tranquilidade e mais calma que em sua própria alma. Sobretudo aquele que possui em seu interior tais bens, que, ao se inclinar a eles, de imediato consegue uma tranquilidade total. E denomino tranquilidade única e exclusivamente à boa ordem. Concede-te, pois, sem pausa, esse retiro e recupera-te. Sejam breves e elementares os princípios que, tão logo sejam localizados, serão suficientes para enclausurar-te em toda a tua alma e para enviar-te de novo, sem aborrecimento, àquelas coisas da vida frente as que te retiras. Porque, contra quem te aborrecerás? Contra a maldade dos homens? Lembra-te que os seres racionais nasceram uns para os outros, que a tolerância é parte da justiça, e que seus erros são involuntários. Lembra, também, quantos inimigos, suspeitos ou odiosos, feridos por lança, estão detidos, reduzidos a cinzas. Modera-te de uma vez. Mas estás aborrecido pela parte que te cabe? Lembra-te do dilema: “Se não há uma providência, então só há os átomos”, e graças a quantas provas foi demonstrado que o mundo é como uma cidade. Preocupam-te ainda as coisas corporais? Reconhece que o pensamento não se mistura com o hábito vital que se move suave ou violentamente, uma vez que se recuperou e compreendeu seu peculiar poder. Enfim, tem presente o que ouviste e aceitaste em relação à dor e ao prazer. Acaso te arrastará a vanglória? Dirige teu olhar à profundidade com que se esquece tudo e ao abismo do tempo infinito por ambos os lados, à veracidade do eco, à versatilidade e irreflexão dos que dão a impressão de elogiar-te, à amargura do lugar em que se circunscreve a glória. Porque a terra inteira é um ponto, e quanto ocupa o nosso cantinho que habitamos nela? E ali, quantos e que classe de homens elogiar-te-ão? Considera que resta-te, pois, o refúgio que se encontra nesse pequeno campo de ti mesmo. E, acima de tudo, não te atormentes nem te esforces demasiadamente; antes, seja um homem livre e olha as coisas como varão, como homem, como cidadão, como ser mortal. E entre as máximas que terás à mão e às quais te inclinará, estejam presentes essas duas: uma, que as coisas não alcançam a alma, mas se encontram fora dela, desprovidas de temor, e as perturbações surgem da única opinião interior. E a segunda, que todas essas coisas que estás vendo, logo se transformarão e já não existirão. Pensa também, constantemente, de quantas transformações tu mesmo já fostes testemunha. O mundo é uma constante transformação; e a vida, opinião”.
  4. Se a inteligência nos é comum, também a razão, segundo a qual somos racionais, nos é comum. Admitido isso, a razão que ordena o que deve ser feito ou evitado, também é comum. Concedido isso, também a lei é comum. Sendo assim, somos cidadãos. Aceito isso, participamos de uma cidadania. Se isso é assim, o mundo é como uma cidade, pois, de que outra comum cidadania poder- se-á afirmar que participa toda a espécie humana? Disso, dessa cidade em comum, procedem tanto a inteligência mesma como a razão e a lei. Ou, de onde? Porque assim como a parte de terra que existe em mim é oriunda de certa terra, a parte úmida, de outro elemento, a parte que infunde vida, de certa fonte, e a parte cálida e ígnea de uma fonte particular (pois nada se origina de nada, como tampouco nada desemboca no que não é), do mesmo modo a inteligência procede de alguma parte.
  5. A morte, assim como o nascimento, é um mistério da natureza, combinação de certos elementos (e dissolução) neles mesmos. Em suma, nada acontece nela pelo qual alguém pudesse sentir vergonha, pois não é a morte contrária à continuação de um ser inteligente nem tampouco à lógica de sua constituição.
  6. É natural que essas coisas sejam produzidas necessariamente assim a partir de tais homens. E o que assim o aceita, pretende que a figueira não produza seu suco. Enfim, lembra-te de que dentro de brevíssimo tempo, tu e ele estareis mortos, e pouco depois, nem sequer vosso nome perdurará.
  7. Destrói a opinião e destruído estará o pensamento “fui prejudicado”. Destrói a queixa “fui prejudicado” e destruído estará o dano.
  8. O que não deteriora o homem, tampouco deteriora sua vida e não lhe prejudica nem externa nem internamente.
  9. A natureza do útil está obrigada a produzir utilidade.
  10. “Tudo o que acontece, por justiça acontece”. Tu constatarás isso, se prestares a devida atenção. Não digo somente que acontece de forma ordenada, mas também segundo o justo e inclusive como se alguém atribuísse à parte correspondente segundo o seu mérito. Segue, pois, observando como ao princípio, e o que fizeres, faze-o com o desejo de ser um homem de bem, de acordo com o conceito próprio do homem de bem. Conserva esta norma em toda ação.
  11. Não consideres as coisas tal como as julga o homem insolente ou como quer que as julgues. Mas antes, examina-as tal como são em realidade.
  12. É preciso ter sempre preparadas essas duas disposições: uma, a de executar exclusivamente aquilo que a razão de tua faculdade real e legislativa te sugira para favorecer os homens; outra, a de mudar de atitude, caso apareça alguém que te corrija e que te faça desistir de alguma das tuas opiniões. Entretanto, é preciso que essa nova orientação tenha sempre sua origem em certa convicção de justiça ou de interesse à comunidade e as motivações devem ter exclusivamente tais características, não o que pareça agradável ou popular.
  13. Tens razão? – Tenho – Então porque não a utilizas? Pois se isso já demonstra o seu papel, que mais queres?.
  14. Existes como parte. Desaparecerás no que te engendrou. Melhor dizendo, serás reabsorvido, mediante um processo de transformação, dentro de tua razão geradora.
  15. Muitos pequenos grãos de incenso encontram-se sobre o altar: um caiu primeiro, outro, depois. Tanto faz.
  16. Dentro de dez dias parecerás um deus aos que agora têm a impressão de que és uma besta e um bruto, se retornares aos princípios e à veneração da razão.
  17. Não ajas na ideia de que viverás dez mil anos. A necessidade inevitável paira sobre ti. Enquanto vives, enquanto é possível, sê virtuoso.
  18. Quanto tempo livre ganha o que não olha o que o outro disse, fez ou pensou, mas exclusivamente o que ele mesmo faz, a fim de que sua ação seja justa, santa ou inteiramente boa. Não dirijas o olhar à escuridão, mas corre direto para a linha de chegada, sem se desviar.
  19. O homem que se deslumbra pela glória póstuma não imagina que cada um dos que se lembraram dele morrerá também em breve. Depois, a sua vez, morrerá o que lhe sucedeu, até que se extinga toda sua lembrança em um avanço progressivo por meio de objetos que se acendem e se apagam. Mas, supõe que são imortais os que de ti se lembrarão, e imortal também a tua lembrança: em que isso afeta? E não quero dizer que nada em absoluto afete o morto; mas ao vivo, que lhe importa o elogio? A não ser em algum caso, por determinado propósito. Abandona agora, pois, essa glória que depende de algo externo.
  20. Além do mais, tudo o que é belo, seja o que for, belo é por si mesmo, e em si mesmo completo, sem considerar o elogio como parte de si mesmo. Em consequência, o referido objeto nem se torna pior nem melhor. Afirmo isso, inclusive, tratando-se das coisas que comumente são denominadas belas, como, por exemplo, os objetos materiais e os objetos fabricados. O que, em verdade, é realmente belo de que tens necessidade? Nada mais que a lei, a verdade, a benevolência ou o pudor. Qual dessas coisas é bela pelo fato de ser elogiada o se destrói por ser criticada? A esmeralda se deteriora porque não a elogiam? E o que dizer do ouro, do marfim, da púrpura, da lira, do punhal, da flor, do arbusto?
  21. Se as almas sobrevivem desde a eternidade, consegue o ar dar-lhes vida? E como a terra é capaz de conter os corpos dos que vêm sendo enterrados há tanto tempo? Assim como, depois de certa permanência, a transformação e a dissolução desses corpos cede lugar a outros cadáveres, também as almas transportadas aos ares, depois de um período de residência ali, se transformam, se dispersam e se inflamam fundindo-se na razão geradora do conjunto, e, dessa forma, dão espaço às almas que vivem em outro lugar. Isso poderia ser respondido na hipótese da sobrevivência das almas. E convém considerar não somente a multidão de corpos que assim são enterrados, mas também a dos animais que diariamente comemos e inclusive o resto de seres vivos. Pois, quão grande número é consumido e, de certa forma, é sepultado nos corpos dos que com eles se alimentam! E, entretanto, têm lugar porque se convertem em sangue, se transformam em ar e fogo. Como investigar a verdade sobre esse ponto? Mediante a diferenciação entre a causa material e a formal.
  22. Não te deixes arrastar. Pelo contrário, em todo impulso, corresponde com o justo, e em toda fantasia, conserva a faculdade de compreender.
  23. Harmoniza comigo tudo o que para ti é harmonioso, ó mundo! Nenhum tempo oportuno para ti mesmo é prematuro nem tardio para mim. É fruto para mim tudo o que produzem tuas estações, ó natureza! De ti procede tudo, em ti reside tudo, tudo volta a ti. Aquele diz: “Querida cidade de Cecrops!”, e tu não dirás: “Ah, querida cidade de Zeus!”?
  24. Disse alguém: “Realiza poucas atividades, se queres manter o bom humor”. Não seria melhor fazer o necessário e tudo quanto prescreve, e da maneira que o prescreve, a razão do ser sociável por natureza? Porque este procedimento não somente procura boa disposição de ânimo para agir bem, mas também é otimismo que provém de estar pouco ocupado. Pois a maior parte das coisas que dizemos e fazemos, ao não serem necessárias, se fossem suprimidas, reportariam bastante mais ócio e tranquilidade. Em consequência, é preciso questionar-se pessoalmente em cada coisa: “não estará isso entre o que não é necessário?” E não somente é preciso eliminar as atividades desnecessárias, mas inclusive as fantasias. Assim, deixarão de acompanhá-las atividades supérfluas.
  25. Comprova como é a vida do homem de bem que se contenta com a parte do conjunto que lhe cabe e que tem o suficiente com sua própria atividade justa e com sua benévola disposição.
  26. Viste aquilo? Vê também isso. Não te espantes. Mostra-te simples. Erra alguém? Erra consigo mesmo. Aconteceu algo contigo? Está bem. Tudo o que te sucede estava determinado pelo conjunto desde o princípio e estava tramado. Em resumo, breve é a vida. Devemos aproveitar o presente com bom juízo e justiça. Sê sóbrio ao relaxar-te.
  27. Ou um mundo ordenado, ou uma mistura confusa muito revoltosa, mas sem ordem. É possível que exista em ti certa ordem e, ao contrário, no todo desordem, precisamente quando tudo está tão transformado, distinto e solidário?
  28. Caráter sombrio, caráter afeminado, caráter teimoso, feroz, bruto, infantil, indolente, falso, palhaço, vigarista, tirânico!
  29. Se estranho ao mundo é quem não conhece o que há nele, não menos estranho é também quem não conhece o que nele acontece. Desertor é o que foge da razão social. Cego o que tem fechados os olhos da inteligência. Mendigo o que tem necessidade de outro e não tem perto de si tudo o que é necessário para viver. Alheio ao mundo o que renuncia e se afasta da razão da natureza comum pelo fato de que está contrariado com o que lhe acontece, pois produz isso aquela natureza que também em te produziu. É um fragmento da cidade, o que separa sua alma particular da dos seres racionais, pois a ala é uma só.
  30. Um, sem túnica, vive como filósofo; o outro, sem Livro; aquele outro, seminu, diz: “Não tenho pão, mas preservo a razão”. E eu tenho os recursos que proporcionam os estudos e não persevero.
  31. Ama, admite o pequeno ofício que aprendeste, e passa o resto de tua vida como uma pessoa que confiou, com toda a sua alma, todas as suas coisas aos deuses, sem tornar-te um tirano nem um escravo de nenhum homem.
  32. Pensa, por exemplo, nos tempos de Vespasiano. Verás sempre as mesmas coisas: pessoas que se casam, criam seus filhos, adoecem, morrem, promovem a guerra, celebram festas, comerciam, cultivam a terra, adulam, são orgulhosos, receiam, conspiram, desejam que alguns morram, murmuram contra a situação presente, amam, aprisionam, ambicionam os consulados e os poderes reais… Pois bem, a vida daqueles já não existe em parte alguma. Lembra-te, agora, dos tempos de Trajano: encontraremos idêntica situação, também aquele modo de viver desapareceu. Da mesma forma, contempla e dirige o olhar ao resto de documentos dos tempos e de todas as nações, quantos, depois de tantos esforços, caíram pouco depois e se desintegraram em seus elementos. Especialmente, deves refletir sobre aquelas pessoas que tu mesmo viste esforçarem-se em vão, e que se esqueceram de fazer o que estava de acordo com sua constituição: perseverar sem descanso nisso e contentar-se com isso. De tal modo, é necessário considerar que a atenção adequada a cada ação tem seu próprio valor e proporção. Pois, assim, não desanimarás, a não ser que ocupes mais tempo do apropriado em tarefas bastante fúteis.
  33. As palavras, antes familiares, são agora locuções caducas. O mesmo ocorre com os nomes de pessoas, que muito celebrados em outros tempos, são agora, de certa forma, locuções caducas: Camilo, Cesônio,Voleso, Leonato. E pouco depois também Cipião e Catão. Também Augusto. E mais tarde Adriano e Antonino. Tudo se extingue e pouco depois se converte em legendários. E logo cai em um total esquecimento. E me refiro aos que, de certa forma, alcançaram surpreendente destaque, porque os demais, desde que desapareceram, são desconhecidos, não relembrados. Mas, o que é, afinal, a lembrança eterna? Vaidade total. O que é, então, o que deve impulsionar nosso afã? Tão somente isso: um pensamento justo, umas atividades consagradas ao bem comum, uma linguagem incapaz de enganar, uma disposição para abraçar tudo o que acontece, como necessário, como familiar, como fluente do mesmo princípio e da mesma fonte.
  34. Entrega-te sem reservas à Parca e deixa-a tecer a trama com os acontecimentos que queira.
  35. Tudo é efêmero: a lembrança e o objeto lembrado.
  36. Contempla continuamente que tudo nasce por transformação, e habitua-te a pensar que nada ama tanto a natureza do conjunto como transformar as coisas existentes e criar novos seres semelhantes. Todo ser, de certa forma, é semente do que dele surgirá. Mas tu somente imaginas as sementes que se lançam à terra ou a uma matriz. E isso é ignorância excessiva.
  37. Estarás morto em seguida, e ainda não és nem simples, nem imperturbável, nem andas sem receio de que possam causar-te dano desde o exterior, nem tampouco és benévolo para com todos, nem medes a sensatez na prática exclusiva da justiça.
  38. Examine com atenção seus guias interiores e indague o que evitam os sábios e o que perseguem.
  39. Não consiste teu mal em um guia interior alheio nem tampouco na variação e alteração do que te circunda. Em que, pois? Naquilo em ti que opina sobre os males. Por tanto, que não opine essa parte e tudo irá bem. E ainda no caso de que seu mais próximo vizinho, o corpo, seja cortado, queimado ou apodreça, permaneça com tudo tranquila a pequena parte que sobre isso opina, ou seja, não julgues nem mal nem bom o que igualmente pode acontecer a um homem mau e a um bom. Porque o que acontece tanto ao que vive conforme a natureza como ao que vive contra ela, isso nem é conforme a natureza nem contrário a ela.
  40. Conceba sem cessar o mundo como um ser vivo único, que contém uma só substância e uma alma única, e como tudo se refere a uma só faculdade de sentir, a sua, e como tudo o faz com um só impulso, e como tudo é responsável solidariamente de tudo o que acontece, e qual é a trama e contexto.
  41. “É suma pequena alma que sustenta um cadáver”, como dizia Epíteto.
  42. Nenhum mal acontece ao que está em vias de transformação, como tampouco nenhum bem ao que nasce por consequência de uma transformação.
  43. O tempo é um rio e uma corrente impetuosa de acontecimentos. Mal se deixa ver cada coisa, é arrastada; aparece outra, e esta também será arrastada.
  44. Tudo o que acontece é tão habitual e bem conhecido como a rosa na primavera e os frutos no verão; algo parecido ocorre com a enfermidade, a morte, a difamação, a conspiração e tudo quanto alegra ou aflige os ignorantes.
  45. As consequências estão sempre vinculadas com os antecedentes; pois não se trata de uma simples enumeração isolada e que contam tão somente o determinado pela necessidade, mas de uma combinação racional. E assim como as coisas que existem têm uma coordenação harmônica, assim também os acontecimentos que se produzem manifestam não uma simples sucessão, mas certa admirável afinidade.
  46. Ter sempre presente a máxima de Heráclito: “a morte da terra é converter-se em água, a morte da água é converter-se em ar, a morte do ar é converter-se em fogo, e o inverso”. E recordar também o do que esquece para onde conduz o caminho. E também que “com aquilo que mais frequente trato têm, a saber, com a razão que governa o conjunto do universo, com isso disputam, e lhes parecem estranhas as coisas que diariamente lhes sucedem”. E ainda: “não se deve agir nem falar como se estivesse dormindo”, pois também então nos parece que agimos e falamos. E que “não é preciso ser como filhos dos pais”, ou seja, aceitar as coisas de forma simples, como forma herdadas.
  47. Como se um deus tivesse dito a ti: “amanhã morrerás ou, em todo caso, depois de amanhã”, não terias colocado maior emprenho em morrer depois de amanhã que amanhã, a menos que fosses extremamente vil (porque, quanta é a diferença?). Da mesma forma, não consideres de grande importância morrer daqui a muitos anos em vez de amanhã.
  48. Considere sem cessar quantos médicos morreram depois de terem fechado os olhos repetidas vezes os seus doentes; quantos astrólogos, depois de terem previsto, como fato importante, a morte de outros; quantos filósofos, depois de terem sustentado inúmeras discussões sobre a morte ou sobre a imortalidade; quantos chefes, depois de terem matado muitos; quantos tiranos, depois de terem abusado, como se fossem imortais, com tremenda arrogância, de seu poder sobre vidas alheias, e quantas cidades inteiras, por assim dizer, morreram: Hélica, Pompéia, Herculanum e outras incontáveis. Acrescente também, um após o outro, todos o que conheceste. Este, depois haver tributado as honras fúnebres a aquele, foi sepultado em seguida por outro; e assim sucessivamente. E tudo em pouco tempo. Assim, examine sempre as coisas humanas como efêmeras e carentes de valor: ontem, germe; amanhã, múmia ou cinza. Portanto, percorra este pequeno lapso de tempo obediente à natureza e termine tua vida alegremente, como a azeitona que, madura, caísse elogiando a terra que lhe deu vida e dando graças à árvore que a produziu.
  49. Ser igual ao rochedo contra o qual, sem interrupção, se quebram as ondas. Este se mantém firme, e em torno dele adormece a espuma da onda. “Sou infeliz, porque isso me aconteceu”. Mas não, ao contrário: “sou feliz, porque, devido ao que me ocorreu, persisto até o fim sem aflição, nem perturbado com o presente nem assustado com o futuro”. Porque algo semelhante poderia acontecer a todo mundo, mas nem todo mundo poderia seguir até o fim, sem aflição, depois disso. E por que, então, será isso um infortúnio mais que boa fortuna? Acaso denominas, afinal, desgraça de um homem ao que não é desgraça da natureza do homem? E acreditas ser aberração da natureza humana o que não vai contra o desígnio de sua própria natureza? Por que, então? Aprendeste tal desígnio? Esse fato te impede de ser justo, magnânimo, sensato, prudente, reflexivo, sincero, discreto, livre, etc., conjunto de virtudes com as quais a natureza humana contém o que lhe é peculiar? Lembra-te, a partir de agora, em todo acontecimento que te induza à aflição, de utilizar este princípio: não é isso um infortúnio, mas uma felicidade suportá-lo com dignidade.
  50. Remédio simples, mas eficaz, para menosprezar a morte, é lembrar-se dos que se apegaram com tenacidade à vida. O que mais têm em relação aos que morreram prematuramente? Em qualquer caso, jazem em alguma parte Ceciliano, Fábio, Juliano, Lépido e outros como eles, que a tantos levaram à tumba, para serem também eles levados depois. Em resumo, pequeno é o intervalo de tempo; e esse, através de quantas dificuldades, em companhia de que tipo de homens e em que corpo passarás! Depois não o tenhas por negócio. Olhe atrás de ti o abismo da eternidade e diante de ti outro infinito. À vista disso, em que se distinguem a criança que viveu três dias e o que viveu três vezes mais que Gereneo?
  51. Corra sempre pelo caminho mais curto, e o mais curto é o que está de acordo com a natureza. Em consequência, fale e aja em tudo da maneira mais correta, pois tal propósito libera das aflições, da disciplina militar, de toda preocupação administrativa e afetação.