Quando está de acordo com a natureza, o nosso “dono interior” adota, em relação aos
acontecimentos, uma atitude tal que sempre, e com facilidade, pode adaptar-se às possibilidades que
lhe são dadas. Não tem predileção por nada predeterminado, mas se lança instintivamente frente o
que lhe é apresentado, com prevenção, e converte em seu favor inclusive o que lhe era obstáculo.
Como o fogo, quando se apropria dos objetos que caem sobre ele, sob os quais uma pequena chama
haveria sido apagada. Mas um fogo resplandecente com grande rapidez se familiariza com o que se
encontra sobre ele e o consome totalmente levantando-se a maior altura com esses novos escombros.
Nenhuma ação deve empreender-se sem motivo nem de modo divergente à norma consagrada pela
arte.
As pessoas buscam retiros no campo, na costa e no monte. Tu também tens o costume de desejar
tais retiros. Mas tudo isso é do mais vulgar, porque podes, no momento em que queiras, retirar-te em
ti mesmo. Em nenhuma parte o homem se retira com maior tranquilidade e mais calma que em sua
própria alma. Sobretudo aquele que possui em seu interior tais bens, que, ao se inclinar a eles, de
imediato consegue uma tranquilidade total. E denomino tranquilidade única e exclusivamente à boa
ordem. Concede-te, pois, sem pausa, esse retiro e recupera-te. Sejam breves e elementares os
princípios que, tão logo sejam localizados, serão suficientes para enclausurar-te em toda a tua alma e
para enviar-te de novo, sem aborrecimento, àquelas coisas da vida frente as que te retiras. Porque,
contra quem te aborrecerás? Contra a maldade dos homens? Lembra-te que os seres racionais
nasceram uns para os outros, que a tolerância é parte da justiça, e que seus erros são involuntários.
Lembra, também, quantos inimigos, suspeitos ou odiosos, feridos por lança, estão detidos, reduzidos
a cinzas. Modera-te de uma vez.
Mas estás aborrecido pela parte que te cabe? Lembra-te do dilema: “Se não há uma providência,
então só há os átomos”, e graças a quantas provas foi demonstrado que o mundo é como uma cidade.
Preocupam-te ainda as coisas corporais? Reconhece que o pensamento não se mistura com o hábito
vital que se move suave ou violentamente, uma vez que se recuperou e compreendeu seu peculiar
poder. Enfim, tem presente o que ouviste e aceitaste em relação à dor e ao prazer.
Acaso te arrastará a vanglória? Dirige teu olhar à profundidade com que se esquece tudo e ao abismo
do tempo infinito por ambos os lados, à veracidade do eco, à versatilidade e irreflexão dos que dão a
impressão de elogiar-te, à amargura do lugar em que se circunscreve a glória. Porque a terra inteira é
um ponto, e quanto ocupa o nosso cantinho que habitamos nela? E ali, quantos e que classe de homens
elogiar-te-ão? Considera que resta-te, pois, o refúgio que se encontra nesse pequeno campo de ti
mesmo. E, acima de tudo, não te atormentes nem te esforces demasiadamente; antes, seja um homem
livre e olha as coisas como varão, como homem, como cidadão, como ser mortal. E entre as máximas
que terás à mão e às quais te inclinará, estejam presentes essas duas: uma, que as coisas não
alcançam a alma, mas se encontram fora dela, desprovidas de temor, e as perturbações surgem da
única opinião interior. E a segunda, que todas essas coisas que estás vendo, logo se transformarão e
já não existirão. Pensa também, constantemente, de quantas transformações tu mesmo já fostes
testemunha.
O mundo é uma constante transformação; e a vida, opinião”.
Se a inteligência nos é comum, também a razão, segundo a qual somos racionais, nos é comum.
Admitido isso, a razão que ordena o que deve ser feito ou evitado, também é comum. Concedido
isso, também a lei é comum. Sendo assim, somos cidadãos. Aceito isso, participamos de uma
cidadania. Se isso é assim, o mundo é como uma cidade, pois, de que outra comum cidadania poder-
se-á afirmar que participa toda a espécie humana? Disso, dessa cidade em comum, procedem tanto a
inteligência mesma como a razão e a lei. Ou, de onde? Porque assim como a parte de terra que existe
em mim é oriunda de certa terra, a parte úmida, de outro elemento, a parte que infunde vida, de certa
fonte, e a parte cálida e ígnea de uma fonte particular (pois nada se origina de nada, como tampouco
nada desemboca no que não é), do mesmo modo a inteligência procede de alguma parte.
A morte, assim como o nascimento, é um mistério da natureza, combinação de certos elementos (e
dissolução) neles mesmos. Em suma, nada acontece nela pelo qual alguém pudesse sentir vergonha,
pois não é a morte contrária à continuação de um ser inteligente nem tampouco à lógica de sua
constituição.
É natural que essas coisas sejam produzidas necessariamente assim a partir de tais homens. E o
que assim o aceita, pretende que a figueira não produza seu suco. Enfim, lembra-te de que dentro de
brevíssimo tempo, tu e ele estareis mortos, e pouco depois, nem sequer vosso nome perdurará.
Destrói a opinião e destruído estará o pensamento “fui prejudicado”. Destrói a queixa “fui
prejudicado” e destruído estará o dano.
O que não deteriora o homem, tampouco deteriora sua vida e não lhe prejudica nem externa nem
internamente.
A natureza do útil está obrigada a produzir utilidade.
“Tudo o que acontece, por justiça acontece”. Tu constatarás isso, se prestares a devida atenção.
Não digo somente que acontece de forma ordenada, mas também segundo o justo e inclusive como se
alguém atribuísse à parte correspondente segundo o seu mérito. Segue, pois, observando como ao
princípio, e o que fizeres, faze-o com o desejo de ser um homem de bem, de acordo com o conceito
próprio do homem de bem. Conserva esta norma em toda ação.
Não consideres as coisas tal como as julga o homem insolente ou como quer que as julgues. Mas
antes, examina-as tal como são em realidade.
É preciso ter sempre preparadas essas duas disposições: uma, a de executar exclusivamente
aquilo que a razão de tua faculdade real e legislativa te sugira para favorecer os homens; outra, a de
mudar de atitude, caso apareça alguém que te corrija e que te faça desistir de alguma das tuas
opiniões. Entretanto, é preciso que essa nova orientação tenha sempre sua origem em certa convicção
de justiça ou de interesse à comunidade e as motivações devem ter exclusivamente tais
características, não o que pareça agradável ou popular.
Tens razão? – Tenho – Então porque não a utilizas? Pois se isso já demonstra o seu papel, que
mais queres?.
Existes como parte. Desaparecerás no que te engendrou. Melhor dizendo, serás reabsorvido,
mediante um processo de transformação, dentro de tua razão geradora.
Muitos pequenos grãos de incenso encontram-se sobre o altar: um caiu primeiro, outro, depois.
Tanto faz.
Dentro de dez dias parecerás um deus aos que agora têm a impressão de que és uma besta e um
bruto, se retornares aos princípios e à veneração da razão.
Não ajas na ideia de que viverás dez mil anos. A necessidade inevitável paira sobre ti. Enquanto
vives, enquanto é possível, sê virtuoso.
Quanto tempo livre ganha o que não olha o que o outro disse, fez ou pensou, mas exclusivamente
o que ele mesmo faz, a fim de que sua ação seja justa, santa ou inteiramente boa. Não dirijas o olhar
à escuridão, mas corre direto para a linha de chegada, sem se desviar.
O homem que se deslumbra pela glória póstuma não imagina que cada um dos que se lembraram
dele morrerá também em breve. Depois, a sua vez, morrerá o que lhe sucedeu, até que se extinga toda
sua lembrança em um avanço progressivo por meio de objetos que se acendem e se apagam. Mas,
supõe que são imortais os que de ti se lembrarão, e imortal também a tua lembrança: em que isso
afeta? E não quero dizer que nada em absoluto afete o morto; mas ao vivo, que lhe importa o elogio?
A não ser em algum caso, por determinado propósito. Abandona agora, pois, essa glória que depende
de algo externo.
Além do mais, tudo o que é belo, seja o que for, belo é por si mesmo, e em si mesmo completo,
sem considerar o elogio como parte de si mesmo. Em consequência, o referido objeto nem se torna
pior nem melhor. Afirmo isso, inclusive, tratando-se das coisas que comumente são denominadas
belas, como, por exemplo, os objetos materiais e os objetos fabricados. O que, em verdade, é
realmente belo de que tens necessidade? Nada mais que a lei, a verdade, a benevolência ou o pudor.
Qual dessas coisas é bela pelo fato de ser elogiada o se destrói por ser criticada? A esmeralda se
deteriora porque não a elogiam? E o que dizer do ouro, do marfim, da púrpura, da lira, do punhal, da
flor, do arbusto?
Se as almas sobrevivem desde a eternidade, consegue o ar dar-lhes vida? E como a terra é capaz
de conter os corpos dos que vêm sendo enterrados há tanto tempo? Assim como, depois de certa
permanência, a transformação e a dissolução desses corpos cede lugar a outros cadáveres, também as
almas transportadas aos ares, depois de um período de residência ali, se transformam, se dispersam e
se inflamam fundindo-se na razão geradora do conjunto, e, dessa forma, dão espaço às almas que
vivem em outro lugar. Isso poderia ser respondido na hipótese da sobrevivência das almas. E
convém considerar não somente a multidão de corpos que assim são enterrados, mas também a dos
animais que diariamente comemos e inclusive o resto de seres vivos. Pois, quão grande número é
consumido e, de certa forma, é sepultado nos corpos dos que com eles se alimentam! E, entretanto,
têm lugar porque se convertem em sangue, se transformam em ar e fogo. Como investigar a verdade
sobre esse ponto? Mediante a diferenciação entre a causa material e a formal.
Não te deixes arrastar. Pelo contrário, em todo impulso, corresponde com o justo, e em toda
fantasia, conserva a faculdade de compreender.
Harmoniza comigo tudo o que para ti é harmonioso, ó mundo! Nenhum tempo oportuno para ti
mesmo é prematuro nem tardio para mim. É fruto para mim tudo o que produzem tuas estações, ó
natureza! De ti procede tudo, em ti reside tudo, tudo volta a ti. Aquele diz: “Querida cidade de
Cecrops!”, e tu não dirás: “Ah, querida cidade de Zeus!”?
Disse alguém: “Realiza poucas atividades, se queres manter o bom humor”. Não seria melhor
fazer o necessário e tudo quanto prescreve, e da maneira que o prescreve, a razão do ser sociável por
natureza? Porque este procedimento não somente procura boa disposição de ânimo para agir bem,
mas também é otimismo que provém de estar pouco ocupado. Pois a maior parte das coisas que
dizemos e fazemos, ao não serem necessárias, se fossem suprimidas, reportariam bastante mais ócio
e tranquilidade. Em consequência, é preciso questionar-se pessoalmente em cada coisa: “não estará
isso entre o que não é necessário?” E não somente é preciso eliminar as atividades desnecessárias,
mas inclusive as fantasias. Assim, deixarão de acompanhá-las atividades supérfluas.
Comprova como é a vida do homem de bem que se contenta com a parte do conjunto que lhe cabe
e que tem o suficiente com sua própria atividade justa e com sua benévola disposição.
Viste aquilo? Vê também isso. Não te espantes. Mostra-te simples. Erra alguém? Erra consigo
mesmo. Aconteceu algo contigo? Está bem. Tudo o que te sucede estava determinado pelo conjunto
desde o princípio e estava tramado. Em resumo, breve é a vida. Devemos aproveitar o presente com
bom juízo e justiça. Sê sóbrio ao relaxar-te.
Ou um mundo ordenado, ou uma mistura confusa muito revoltosa, mas sem ordem. É possível que
exista em ti certa ordem e, ao contrário, no todo desordem, precisamente quando tudo está tão
transformado, distinto e solidário?
Se estranho ao mundo é quem não conhece o que há nele, não menos estranho é também quem não
conhece o que nele acontece. Desertor é o que foge da razão social. Cego o que tem fechados os
olhos da inteligência. Mendigo o que tem necessidade de outro e não tem perto de si tudo o que é
necessário para viver. Alheio ao mundo o que renuncia e se afasta da razão da natureza comum pelo
fato de que está contrariado com o que lhe acontece, pois produz isso aquela natureza que também em
te produziu. É um fragmento da cidade, o que separa sua alma particular da dos seres racionais, pois
a ala é uma só.
Um, sem túnica, vive como filósofo; o outro, sem Livro; aquele outro, seminu, diz: “Não tenho
pão, mas preservo a razão”. E eu tenho os recursos que proporcionam os estudos e não persevero.
Ama, admite o pequeno ofício que aprendeste, e passa o resto de tua vida como uma pessoa que
confiou, com toda a sua alma, todas as suas coisas aos deuses, sem tornar-te um tirano nem um
escravo de nenhum homem.
Pensa, por exemplo, nos tempos de Vespasiano. Verás sempre as mesmas coisas: pessoas que se
casam, criam seus filhos, adoecem, morrem, promovem a guerra, celebram festas, comerciam,
cultivam a terra, adulam, são orgulhosos, receiam, conspiram, desejam que alguns morram,
murmuram contra a situação presente, amam, aprisionam, ambicionam os consulados e os poderes
reais… Pois bem, a vida daqueles já não existe em parte alguma. Lembra-te, agora, dos tempos de
Trajano: encontraremos idêntica situação, também aquele modo de viver desapareceu. Da mesma
forma, contempla e dirige o olhar ao resto de documentos dos tempos e de todas as nações, quantos,
depois de tantos esforços, caíram pouco depois e se desintegraram em seus elementos.
Especialmente, deves refletir sobre aquelas pessoas que tu mesmo viste esforçarem-se em vão, e que
se esqueceram de fazer o que estava de acordo com sua constituição: perseverar sem descanso nisso
e contentar-se com isso. De tal modo, é necessário considerar que a atenção adequada a cada ação
tem seu próprio valor e proporção. Pois, assim, não desanimarás, a não ser que ocupes mais tempo
do apropriado em tarefas bastante fúteis.
As palavras, antes familiares, são agora locuções caducas. O mesmo ocorre com os nomes de
pessoas, que muito celebrados em outros tempos, são agora, de certa forma, locuções caducas:
Camilo, Cesônio,Voleso, Leonato. E pouco depois também Cipião e Catão. Também Augusto. E mais
tarde Adriano e Antonino. Tudo se extingue e pouco depois se converte em legendários. E logo cai
em um total esquecimento. E me refiro aos que, de certa forma, alcançaram surpreendente destaque,
porque os demais, desde que desapareceram, são desconhecidos, não relembrados. Mas, o que é,
afinal, a lembrança eterna? Vaidade total. O que é, então, o que deve impulsionar nosso afã? Tão
somente isso: um pensamento justo, umas atividades consagradas ao bem comum, uma linguagem
incapaz de enganar, uma disposição para abraçar tudo o que acontece, como necessário, como
familiar, como fluente do mesmo princípio e da mesma fonte.
Entrega-te sem reservas à Parca e deixa-a tecer a trama com os acontecimentos que queira.
Tudo é efêmero: a lembrança e o objeto lembrado.
Contempla continuamente que tudo nasce por transformação, e habitua-te a pensar que nada ama
tanto a natureza do conjunto como transformar as coisas existentes e criar novos seres semelhantes.
Todo ser, de certa forma, é semente do que dele surgirá. Mas tu somente imaginas as sementes que se
lançam à terra ou a uma matriz. E isso é ignorância excessiva.
Estarás morto em seguida, e ainda não és nem simples, nem imperturbável, nem andas sem receio
de que possam causar-te dano desde o exterior, nem tampouco és benévolo para com todos, nem
medes a sensatez na prática exclusiva da justiça.
Examine com atenção seus guias interiores e indague o que evitam os sábios e o que perseguem.
Não consiste teu mal em um guia interior alheio nem tampouco na variação e alteração do que te
circunda. Em que, pois? Naquilo em ti que opina sobre os males. Por tanto, que não opine essa parte
e tudo irá bem. E ainda no caso de que seu mais próximo vizinho, o corpo, seja cortado, queimado ou
apodreça, permaneça com tudo tranquila a pequena parte que sobre isso opina, ou seja, não julgues
nem mal nem bom o que igualmente pode acontecer a um homem mau e a um bom. Porque o que
acontece tanto ao que vive conforme a natureza como ao que vive contra ela, isso nem é conforme a
natureza nem contrário a ela.
Conceba sem cessar o mundo como um ser vivo único, que contém uma só substância e uma alma
única, e como tudo se refere a uma só faculdade de sentir, a sua, e como tudo o faz com um só
impulso, e como tudo é responsável solidariamente de tudo o que acontece, e qual é a trama e
contexto.
“É suma pequena alma que sustenta um cadáver”, como dizia Epíteto.
Nenhum mal acontece ao que está em vias de transformação, como tampouco nenhum bem ao que
nasce por consequência de uma transformação.
O tempo é um rio e uma corrente impetuosa de acontecimentos. Mal se deixa ver cada coisa, é
arrastada; aparece outra, e esta também será arrastada.
Tudo o que acontece é tão habitual e bem conhecido como a rosa na primavera e os frutos no
verão; algo parecido ocorre com a enfermidade, a morte, a difamação, a conspiração e tudo quanto
alegra ou aflige os ignorantes.
As consequências estão sempre vinculadas com os antecedentes; pois não se trata de uma simples
enumeração isolada e que contam tão somente o determinado pela necessidade, mas de uma
combinação racional. E assim como as coisas que existem têm uma coordenação harmônica, assim
também os acontecimentos que se produzem manifestam não uma simples sucessão, mas certa
admirável afinidade.
Ter sempre presente a máxima de Heráclito: “a morte da terra é converter-se em água, a morte da
água é converter-se em ar, a morte do ar é converter-se em fogo, e o inverso”. E recordar também o
do que esquece para onde conduz o caminho. E também que “com aquilo que mais frequente trato
têm, a saber, com a razão que governa o conjunto do universo, com isso disputam, e lhes parecem
estranhas as coisas que diariamente lhes sucedem”. E ainda: “não se deve agir nem falar como se
estivesse dormindo”, pois também então nos parece que agimos e falamos. E que “não é preciso ser
como filhos dos pais”, ou seja, aceitar as coisas de forma simples, como forma herdadas.
Como se um deus tivesse dito a ti: “amanhã morrerás ou, em todo caso, depois de amanhã”, não
terias colocado maior emprenho em morrer depois de amanhã que amanhã, a menos que fosses
extremamente vil (porque, quanta é a diferença?). Da mesma forma, não consideres de grande
importância morrer daqui a muitos anos em vez de amanhã.
Considere sem cessar quantos médicos morreram depois de terem fechado os olhos repetidas
vezes os seus doentes; quantos astrólogos, depois de terem previsto, como fato importante, a morte
de outros; quantos filósofos, depois de terem sustentado inúmeras discussões sobre a morte ou sobre
a imortalidade; quantos chefes, depois de terem matado muitos; quantos tiranos, depois de terem
abusado, como se fossem imortais, com tremenda arrogância, de seu poder sobre vidas alheias, e
quantas cidades inteiras, por assim dizer, morreram: Hélica, Pompéia, Herculanum e outras
incontáveis. Acrescente também, um após o outro, todos o que conheceste. Este, depois haver
tributado as honras fúnebres a aquele, foi sepultado em seguida por outro; e assim sucessivamente. E
tudo em pouco tempo. Assim, examine sempre as coisas humanas como efêmeras e carentes de valor:
ontem, germe; amanhã, múmia ou cinza. Portanto, percorra este pequeno lapso de tempo obediente à
natureza e termine tua vida alegremente, como a azeitona que, madura, caísse elogiando a terra que
lhe deu vida e dando graças à árvore que a produziu.
Ser igual ao rochedo contra o qual, sem interrupção, se quebram as ondas. Este se mantém firme,
e em torno dele adormece a espuma da onda. “Sou infeliz, porque isso me aconteceu”. Mas não, ao
contrário: “sou feliz, porque, devido ao que me ocorreu, persisto até o fim sem aflição, nem
perturbado com o presente nem assustado com o futuro”. Porque algo semelhante poderia acontecer a
todo mundo, mas nem todo mundo poderia seguir até o fim, sem aflição, depois disso. E por que,
então, será isso um infortúnio mais que boa fortuna? Acaso denominas, afinal, desgraça de um homem
ao que não é desgraça da natureza do homem? E acreditas ser aberração da natureza humana o que
não vai contra o desígnio de sua própria natureza? Por que, então? Aprendeste tal desígnio? Esse fato
te impede de ser justo, magnânimo, sensato, prudente, reflexivo, sincero, discreto, livre, etc.,
conjunto de virtudes com as quais a natureza humana contém o que lhe é peculiar? Lembra-te, a partir
de agora, em todo acontecimento que te induza à aflição, de utilizar este princípio: não é isso um
infortúnio, mas uma felicidade suportá-lo com dignidade.
Remédio simples, mas eficaz, para menosprezar a morte, é lembrar-se dos que se apegaram com
tenacidade à vida. O que mais têm em relação aos que morreram prematuramente? Em qualquer caso,
jazem em alguma parte Ceciliano, Fábio, Juliano, Lépido e outros como eles, que a tantos levaram à
tumba, para serem também eles levados depois. Em resumo, pequeno é o intervalo de tempo; e esse,
através de quantas dificuldades, em companhia de que tipo de homens e em que corpo passarás!
Depois não o tenhas por negócio. Olhe atrás de ti o abismo da eternidade e diante de ti outro infinito.
À vista disso, em que se distinguem a criança que viveu três dias e o que viveu três vezes mais que
Gereneo?
Corra sempre pelo caminho mais curto, e o mais curto é o que está de acordo com a natureza. Em
consequência, fale e aja em tudo da maneira mais correta, pois tal propósito libera das aflições, da
disciplina militar, de toda preocupação administrativa e afetação.