- Ao despontar a aurora, faça estas considerações prévias: encontrarei com um indiscreto, com um ingrato, com um insolente, com um mentiroso, com um invejoso, com um não-sociável. Tudo isso lhes ocorre por ignorância do bem e do mal. Mas eu, que observei que a natureza do bem é o belo, e que a do mal é o vergonhoso, e que a natureza do próprio pecador, que é meu parente, porque participa, não do mesmo sangue ou da mesma semente, mas das inteligência e de uma porção da divindade, não posso receber dano de nenhum deles, pois nenhum me cobrirá de vergonha; nem posso me aborrecer com meu parente nem odiá-lo. Pois, nascemos para colaborar, como os pés, as mãos, as pálpebras, os dentes, superiores e inferiores. Agir, pois, como adversários uns para com os outros é contrário à natureza. E é agir como adversário o fato de manifestar indignação e repulsa.
- Isso é tudo o que sou: um pouco de carne, um breve fôlego vital e o guia interior. Deixe os
Livros! Não te distraias mais; não está permitido a ti. Mas que, na idéia de que já és um moribundo, despreza a carne: sangue e pó, ossos, fino tecido de nervos, de pequenas veias e artérias. Olha também em que consiste o fôlego vital: vento, e nem sempre o mesmo, pois em todo momento se expira e de novo se aspira. Em terceiro lugar, pois, te resta o guia interior. Reflete assim: és velho; não o consintas por mais tempo que seja escravo, nem que siga ainda arrastando-se como marionete por instintos egoístas, nem que maldigas o destino presente ou tenhas receio do futuro. 3. As obras dos deuses estão cheias de providência. As da Fortuna não estão separadas da natureza ou da trama e entrelaçamento das coisas governadas pela Providência. Disso flui tudo. Acrescenta-se o necessário e o conveniente para o conjunto do universo, do qual és parte. Para qualquer parte da natureza, é bom aquilo que colabora com a natureza do conjunto e o que é capaz de preservá-la. E conservam o mundo tanto as transformações dos elementos simples como as dos compostos. Sejam suficientes para ti essas reflexões, se são princípios básicos. Afasta tua sede de Livros, para não morrer amargurado, mas verdadeiramente resignado e grato de coração aos deuses. 4. Lembra de quanto tempo faz que diferencias isso e quantas vezes recebeste avisos prévios dos deuses sem aproveitá-los. É preciso que a partir desse momento percebas de que mundo és parte e de que governante do mundo procedes como emanação, e compreenderás que tua vida está circunscrita em um período de tempo limitado. Caso não aproveites essa oportunidade para serenar-te, ela passará, e tu também passarás, e já não haverá outra. 5. Em todas as horas, preocupa-te resolutamente, como romano e homem, em fazer o que tens nas mãos com pontual e não fingida gravidade, com amor, liberdade e justiça, e procura tempo livre para libertar-te de todas as demais distrações. E conseguirás teu propósito se executas cada ação como se fosse a última da tua vida, desprovida de toda irreflexão, de toda aversão apaixonada que tenha te afastado do domínio da razão, de toda hipocrisia, egoísmo e despeito no que se refere ao destino. Estás vendo como são poucos os princípios que precisamos dominar para viver uma vida de curso favorável e de respeito aos deuses. Porque os deuses nada mais reclamarão a quem observa esses preceitos. 6. Humilha-te, humilha-te, alma minha! E já não terás ocasião para honrar-te. Breve é a vida para cada um! Tu, praticamente, a consumiste sem respeitar a alma que te pertence, e, entretanto, torna dependente a tua felicidade à alma de outros. 7. Não permitas te arrastem os acidentes exteriores; procura tempo livre para aprender algo bom e pare de girar como um peão. Adiante, deves precaver-te também de outros desvios. Porque deliram também, em meio a tantas ocupações, os que estão cansados de viver e não têm alvo ao qual dirigir todo impulso e, em resumo, sua imaginação. 8. Não é fácil ver um homem desacreditado por não ter sondado o que se passa na alma de outros. Mas quem não segue com atenção os movimentos de sua própria alma, forçosamente é infeliz. 9. É preciso ter sempre presente isso: qual é a natureza do conjunto e qual é a minha, e como se comporta em relação àquela e qual parte, a qual conjunto pertence; ter presente também que ninguém te impeça de agir sempre e dizer o que é consequente com a natureza, da qual és parte. 10. A partir de uma perspectiva filosófica, afirma Teofrasto, em sua comparação das faltas, como poderia compará-las um homem segundo o sentido comum, que as faltas cometidas por concupiscência são mais graves que as cometidas por ira. Porque o homem irado parece desviar-se da razão com certa dor e aperto no coração; enquanto que a pessoa que peca por concupiscência, derrotado pelo prazer, mostra-se mais fraco e lânguido em suas faltas. Com razão, pois, e de maneira digna de um filósofo, disse que o que peca com prazer merece maior reprovação que o que peca com dor. Resumindo, o primeiro se parece mais a um homem que foi vítima de uma injustiça prévia e que se viu forçado a sentir ira por dor; o segundo, lançou-se à injustiça por si mesmo, movido a agir por concupiscência. 11. Na convicção de que pode sair da vida a qualquer momento, faça, fale e pense todas e cada uma das coisas em consonância com essa ideia. Pois distanciar-se dos homens, se existem deuses, em absoluto é temível, porque estes não poderiam atirar-te ao mar. Mas, se em verdade não existem, ou não lhes importam os assuntos humanos, para que viver em um mundo vazio de deuses ou vazio de providência? Mas sim, existem, e lhes importam as coisas humanas, e criaram todos os meios a seu alcance para que o homem não sucumba aos verdadeiros males. E se restar algum mal, também haveriam previsto, a fim de que contasse o homem com todos os meios para evitar cair nele. Mas o que não torna pior um homem, como isso poderia fazer pior a sua vida? Nem por ignorância nem conscientemente, mas por ser incapaz de prevenir ou corrigir esses defeitos, a natureza do conjunto o teria consentido. E, tampouco, por incapacidade ou inabilidade teria cometido um erro de tais dimensões como acontece aos bons e aos maus indistintamente, bens e males em partes iguais. Entretanto, morte e vida, glória e infâmia, dor e prazer, riqueza e penúria, tudo isso acontece indistintamente ao homem bom e ao mal, pois não é nem belo nem feio, porque, efetivamente, não são bons nem maus. 12. Como em um instante tudo desaparece: no mundo, os próprios corpos, e no tempo, sua memória! Como tudo é sensível, especialmente o que nos atrai pelo prazer ou nos assusta pela dor ou o que nos faz gritar por orgulho! Como tudo é vil, desprezível, sujo, facilmente destrutível e cadavérico! Isso deve considerar a faculdade da inteligência! O que é isso, cujas opiniões e palavras procuram boa fama? Que é a morte? Porque se a vemos exclusivamente e se abstraem, pela divisão de seu conceito, os fantasmas que a recobrem, já não sugerirá outra coisa senão que é obra da natureza. E se alguém teme a ação da natureza, é uma infantilidade. Mas não somente a morte é uma ação de natureza, mas, também, uma ação útil da natureza. 13. Nada mais infeliz que o homem que percorre em círculo todas as coisas e que pergunta sobre as “profundidades da terra” e que busca, mediante conjecturas, o que ocorre na alma do vizinho, mas sem perceber que é necessário, apenas, estar junto à única divindade que habita seu interior e ser seu sincero servo. E o culto que se deve a essa divindade consiste em preservá-la pura da paixão, da falta de reflexões e do desgosto contra o que procede dos deuses e dos homens. Porque o que procede dos deuses é respeitável por excelência, mas o que procede dos homens nos é querido por nosso parentesco e, às vezes, inclusive, de certa forma inspira compaixão, por sua ignorância acerca do bem e do mal, uma cegueira que nos impede de discernir entre o branco e o escuro. 14. Ainda que pudesses viver três mil anos e outras tantas vezes dez mil, ainda assim lembra-te de que ninguém perde outra vida além da que vive, nem vive outra além da que perde. Consequentemente, o mais longo e o mais curto confluem em um mesmo ponto. O presente, de fato, é igual para todos; o que se perde é também igual, e o que se separa é, evidentemente, um simples instante. Assim, nem o passado nem o futuro podem ser perdidos, porque, o que não se tem, como alguém nos poderia tirar? Tenha sempre presente, portanto, essas duas coisas: uma, que tudo, desde sempre, se apresenta de forma igual e descreve os mesmos círculos, e nada importa que se contemple a mesma coisa durante cem anos, duzentos ou um tempo indefinido; a outras, que o que viveu mais tempo e o que morrerá mais prematuramente, sofrem perda idêntica. Porque somente podemos ser privados do presente, posto que possuímos apenas o presente, e o que não se possui, não se pode perder. 15. “Tudo é opinião”. Evidente é isso o que diz o cínico Mônimo. Também, a utilidade do que ele diz é clara, se extrairmos o essencial. 16. A alma do homem confronta-se, principalmente, quando, no que dela depende, converte-se em um tumor e em algo parecido a uma excrescência do mundo. Porque incomodar-se com algum acontecimento é uma separação da natureza, em cuja parcela estão abrigadas as naturezas de cada um dos seres restantes. Em segundo lugar, confronta-se, também, quando sente aversão a qualquer pessoa ou comporta-se hostilmente com intenção de machucá-la, como é o caso das naturezas dos que se deixar levar pela cólera. Em terceiro lugar, confronta-se, quando sucumbe ao prazer e ao pesar. Em quarto lugar, quando é hipócrita e faz ou diz algo com ficção ou contra a verdade. Em quinto lugar, quando se desentende de uma atividade ou impulso que lhe é próprio, sem perseguir nenhum objetivo, mas que, à sorte ou inconscientemente, dedica-se a qualquer tarefa sendo que, inclusive as mais insignificantes atividades, deveriam ser realizadas considerando-se sua finalidade. E a finalidade dos seres racionais é obedecer à razão e a lei da cidade e constituição mais venerável. 17. O tempo da vida humana: um ponto. Sua substância: um fluxo. Sua sensação: trevas. A composição do conjunto do corpo: facilmente corruptível. Sua alma: um remoinho. Sua felicidade: algo difícil de conjecturar. Sua fama: indecifrável. Em poucas palavras: tudo o que pertence ao corpo, um rio; sonho e vapor, o que é próprio da alma; a vida, guerra e estância em terra estranha; a fama póstuma, esquecimento. O que pode, então, fazer-nos companhia? Única e exclusivamente a filosofia. E ela consiste em preservar o guia interior, isento de ultrajes e de danos, dono de prazeres e dores, sem fazer nada por acaso, sem valer-se da mentira nem da hipocrisia, à margem do que outro faça o deixe de fazer; mais ainda, aceitando o que acontece e o reconhecendo como precedente daquele lugar de onde ele mesmo viera. E, principalmente, aguardando a morte com pensamento favorável, com a convicção de que a morte não é outra coisa além da dissolução de elementos que compõem cada ser vivo. E se para os mesmos elementos não existe nada de temível no fato de que cada um se transforma continuamente em outro, por que temer a transformação e dissolução do todas as coisas? Pois isso está de acordo com a natureza, e nada pode ser mal se está em conformidade com a natureza. Isso foi escrito em Carnuntum.